Para muitas mulheres, o diagnóstico de câncer de mama chega cedo, ainda em idade reprodutiva. Algumas descobrem a doença quando planejam engravidar; outras recebem o diagnóstico durante a gestação. Em ambos os casos, conciliar o tratamento oncológico com o desejo de ter filhos exige planejamento e acompanhamento médico especializado.
Daniel Negrini, médico oncologista especializado em câncer de mama que atende no , destaca que a preservação da fertilidade ainda é um aspecto pouco abordado nas campanhas de conscientização sobre a doença.Ambulatório de Câncer de Mama na Gestação do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp)
“Hoje em dia, as principais sociedades médicas da área de oncologia recomendam formalmente o encaminhamento das pacientes em idade reprodutiva para um profissional que avalie a preservação da fertilidade, especialmente quando elas vão realizar algum tratamento que possa comprometê-la”, explica.
Uma das estratégias disponíveis é a criopreservação de óvulos. O procedimento envolve estimulação hormonal para aumentar a produção de óvulos, que são coletados e congelados antes do início do tratamento oncológico. No futuro, eles poderão ser fertilizados e dar origem a embriões para uma possível gestação.
“É feita uma estimulação hormonal para a paciente conseguir produzir mais óvulos, e esses óvulos são captados e congelados previamente ao tratamento oncológico. No futuro, eles podem ser fertilizados, dar origem a um embrião, e a paciente pode conduzir a gestação quando o momento for adequado”, detalha Negrini.
Nem todas as mulheres submetidas ao tratamento contra o câncer de mama desenvolvem menopausa precoce ou infertilidade. Segundo o médico, os riscos dependem do protocolo terapêutico utilizado e da idade da paciente. Mulheres próximas dos 40 anos, por exemplo, apresentam maior probabilidade de enfrentar dificuldades para engravidar posteriormente.
Por isso, a avaliação da fertilidade deve ocorrer antes do início do tratamento, quando possível. No entanto, o acesso a esses procedimentos ainda não é oferecido de maneira uniforme no Brasil.
Câncer de mama durante a gravidez
O diagnóstico de câncer de mama durante a gestação é raro. Estima-se que ocorra em aproximadamente um caso a cada 3 mil . Nessa situação, a identificação da doença pode ser mais difícil, pois as alterações hormonais e o aumento da densidade mamária durante a gravidez dificultam a detecção de tumores.
O tratamento também exige cuidados específicos, uma vez que é necessário considerar tanto a saúde da mãe quanto a do feto. “Você tem que começar a lidar não só com as questões do desfecho oncológico para a mãe, mas também para o feto. Então, a estratégia de tratamento precisa ser modificada em quase todos os casos. A gente vai tentar oferecer para a mãe um tratamento o mais próximo possível daquele que fazemos para o câncer de mama em geral, mas, ao mesmo tempo, vai ter que proteger o feto”, afirma Negrini.
Para isso, é necessária uma equipe multidisciplinar, que pode envolver obstetra, mastologista, oncologista, profissionais de enfermagem obstétrica e psicólogos, entre outros especialistas. A escolha das estratégias terapêuticas depende de fatores como o estágio da doença e a fase da gestação.
Planejamento da gravidez após o tratamento
Entre 60% e 70% dos casos de câncer de mama estão associados à influência hormonal. Em tumores com receptores hormonais positivos, substâncias como o estrogênio e a progesterona podem estimular o crescimento das células tumorais. Por esse motivo, a terapia hormonal é uma parte importante do tratamento, geralmente realizada após a cirurgia e, quando indicadas, a quimioterapia e a radioterapia.
O tratamento hormonal costuma durar pelo menos cinco anos, podendo chegar a dez anos, inclusive entre mulheres jovens. Esse período pode representar um obstáculo para quem deseja engravidar, especialmente quando a idade reprodutiva é um fator importante no planejamento da maternidade.
Uma possibilidade para essas pacientes foi investigada pelo estudo Positive, publicado em 2023. A pesquisa avaliou a segurança da interrupção temporária da terapia hormonal para permitir que mulheres com câncer de mama com receptores hormonais positivos tentassem engravidar.
Entre as participantes, cerca de 74% conseguiram engravidar. Os resultados iniciais não indicaram aumento do risco de recorrência da doença em comparação com dados históricos de outras pacientes. A estratégia, entretanto, foi avaliada em mulheres selecionadas, e a interrupção do tratamento deve ser discutida individualmente com a equipe médica. Ainda são necessários dados de acompanhamento a longo prazo para compreender melhor os possíveis riscos.
Diante dessas possibilidades, Negrini ressalta a importância de conversar com a equipe médica sobre o desejo de ter filhos logo após o diagnóstico e antes do início do tratamento. A criopreservação de óvulos ou embriões pode ser uma alternativa para preservar a fertilidade, mas sua viabilidade depende das características do tumor e da urgência do tratamento.
O oncologista também alerta para a necessidade de utilizar métodos contraceptivos durante a terapia oncológica, uma vez que uma gravidez nesse período pode trazer complicações e interferir na condução do tratamento.
Com informações do site: Agência São Paulo.